domingo, 18 de setembro de 2011

Dissecação

Há tempos







   Exercício de auto-conhecimento numa dissecação da tristeza, isso é "Há tempos". Numa conversa de si para si, o eu-lírico (que, nesse caso específico, confunde-se com o poeta, já que Renato foi sabidamente depressivo durante grande parte da vida e usava a música para expressar tal estado) tenta argumentar que sua "tristeza" e seus "temores" são menores do que parecem. Interessante é a associação com cocaína, que causa, em geral, sensação de euforia e bem-estar. A princípio, fui levado a crer que a música tomava ares de ficção científica, que Renato subvertera o efeito da droga ao universo da música, estando este a aleatório a realidade. Mais tarde percebi que estava sendo influenciado pela leitura de "Laranja Mecânica", o clássico da literatura inglesa que superlativiza a violência social narrando seus efeitos num futuro desconhecido. É certo que a melancolia quase seca apresentada em Há tempos mostra que, para Renato, nossa realidade não está tão distante da atrocidade geral narrada por Anthony Burgess.
  Ao falar de "cansaço", "solidão", "descompasso", "desperdício", o vocalista da Legião não deixa claro a quem atribui culpas, talvez justamente por achar que somos todos autores e vítimas de nossos erros. É interessante observar como ele abandona, nessa canção, a abordagem mais habitual de suas letras: o indivíduo como centro do falar poético. Na nova visão que traz, Renato aborda sua própria tristeza a partir de fatores externos gerais que o leva a descrer nos outros e em si. Isso fica claro quando ele diz: "Talvez tua cidade", falando daqueles que o rodeiam.
  Na intenção de explicitar o quanto o mundo anda mal, Renato Russo fala do sonho como uma coisa distante e quase esquecida, e afirma que dia bonito e uma "tristeza exata" devem ser comemorados, pois são raros. A tal "tristeza exata" é também uma forma que as pancadas vem em tal intensidade e excesso, que quando se sabe exatamente porque se está triste, é motivo para 'celebrar'.
   Como toda dor represada um dia transborda, Renato eleva o tom pra dizer que sua dor fosse uma voz, acordaria toda a vizinhança; afirma ainda que "nem os santos tem ao certo a medida da maldade", porque, segundo a fé cristã, os santos intercedem por nossos pecados a Deus, mas nem eles conseguem mais mensurar nossas falhas, nossa "maldade".
  Contudo, apesar do quase pessimismo, Renato Russo encerra a canção com um tom de esperança, como é de se esperar de alguém que acreditava tanto em Roussau (autor da teoria do "Bom selvagem" que dizia que o homem é bom por natureza) que adotou o no me de 'Russo' em sua homenagem. Ele ressalta a importância das virtudes  "disciplina", "compaixão" e "bondade" que nem sempre lembradas pelas consequências positivas a que levam, mas por serem virtudes difíceis de aplicar sem algum prejuízo aparente. Entretanto Renato as associa a "liberdade", sempre almejada, e a "fortaleza" que é o qu precisamos ser em tempos nada favoráveis.
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